Tese

O BLOCO DA LAMA – PARATY – SUL DO RIO DE JANEIRO

ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES USP-SÃO PAULO
DISCIPLINA: FOLGUETOS POPULARES – FORMAS DE TEATRO POPULAR
RESPOSÁVEL: PROFº . Dr. CLÓVIS GARCIA
ORIENTANDA: MARISA SASO PAPA
SÃO PAULO 1991.

“Teatro é alguma coisa que acontece, num determinado momento e espaço, alguma coisa que se diz, e se transforma e, ao se transformar, modifica o ambiente. È uma emoção estética que se comunica entre um indivíduo e outros ao seu redor, através de determinadas atitudes, palavras e ações.”
Ana Maria Amaral

INTRODUÇÃO
Se você, caro amigo, tiver escolhido a pitoresca cidade de Paraty para curtir o seu feriado de carnaval e estiver voltando da praia lá pelo final da tarde, depois de umas e outras na Barraca do Ari e ou saborear um gostoso vermelho na Barraca do Lapinha e, de repente, der de cara com um bando de seres extraterrenos (ou serão intraterrenos?) horripilantes (ou serão maravilhosos?), não pense que você enlouqueceu. Trata-se apenas da mais fantástica visão que jamais tive: O BLOCO DA LAMA.

O BLOCO DA LAMA

Concentração
Sempre aos sábados de Carnaval, às 17:00 horas seus integrantes se reúnem da praça da matriz de Paraty-RJ.

São pessoas de ambos os sexos e de todas as idades que se vestem em trajes de banho. A participação é aberta a todo aquele que queira se integrar ao Bloco.

Movimentação
No máximo às 17:30 horas, os integrantes se dirigem no final da Paria do Jabaquara, perto da Toca do Cassununga,onde se dá o banho de lama.

Existe um acordo entre seus adeptos de que todo aquele que estiver em dúvida quanto à sua participação, deve retornar antes de ultrapassar a ponte do Jabaquara.

Todos se auxiliam durante o banho de lama e isso já vai criando uma cumplicidade de tribo mesmo.

A Lama
Essa lama é comprovadamente medicinal pois se trata de lama do mangue.

A sua textura é de um creme super refrescante, de cor escura, que vai do cinza chumbo a tons azulados e adere ao corpo como uma graxa. Tem um cheiro peculiar sem ser desagradável;

Muitos se utilizam dela, em qualquer época do ano, na cura de várias moléstias ou cicatrização de ferimentos, como faziam já os índios Guaianazes, que desciam dos campos da Serra de Cunha em busca de seus benefícios.

“Eu sinto uma volta ao primitivo, volta ao seio mesmo da origem da vida, a transa do barro, não sei se é muito forte a lama, que é o começo do mar, …é a origem mesmo.”
(Luiz Rebelo, 49, educador)

“Ah é inexplicável. Foi tão bonito. É como se fosse uma volta a origem de alguma coisa, sabe, é como se você surgisse da lama. Não tinha roupa, não tinha nada, tinha aquele mato né, e é tão bonito.”
(Saulo Cruz Machado, 38, bioquímico)

“É como se tivesse passando assim uma manteiga no corpo, um creme bem leve, bem gostoso, sabe. Ela ´e fresca. Depois que ela seca aí ela começa a incomodar um pouco, que a lama esturrica e vai arrebentando. Mas é uma sensação maravilhosa”
(Maria Rameck, 74)

Apesar dos trajes de banho as pessoas envoltas pela lama aparentam estar com o corpo nu.

Vestimentas e adereços

Além do traje de banho sob a lama, algumas pessoas envolvem o corpo com trapos ou peles (também banhados na lama) para compor melhor sua indumentária.

Muitos colocam barba-de-velho (um parasita que dá nas árvores) cipós ou algas nos cabelos e se utilizam ainda de ossadas (de boi ou cação) sobre a cabeça. Ossos e toda sorte de paus servem também como adereços de mão.

Enfim, as alegorias correm por conta de seus integrantes, respeitando a regra de só valer de coisas naturais.

Participantes

Desde a sua aparição, em 1986, a adesão ao Bloco da Lama vem crescendo significativamente de ano para Ana. De aproximadamente 10 pessoas, em seis anos atingiu cerca de 500 integrantes.

A “tribo” é formada, na sua maioria, por filhos de Paraty ou freqüentadores habituais que tem parentes e amigos na cidade. Não se esquecendo dos muitos turistas que, tendo sido pegos de surpresa, retornam agora no carnaval com o propósito de participar desta festa.

Seus adeptos têm as mais variadas profissões (médicos, vendedores, professores, comerciantes e pescadores) e todas as faixas etárias tenras até as idades bem avançadas.

Muitas vezes famílias inteiras, pais e filhos, sobrinhos e até mulheres grávidas participam. Sem esquecer seu mais fiel amigo o cão, também todo enlameado.

Há também o caso de haver pessoas que se encontram com o bloco durante o seu trajeto e, irresistivelmente resolvem aderir ao mesmo. No que são prontamente atendidas, sendo enlameadas, pelos seus “novos irmãos de lama”.

Como? Não sei. Através de abraços … amassos… contato. É a festa, é o prazer. É carnaval.

Histórico

Origem
Dois jovens de Paraty, Lúcio o (Congá) e Nilton (vulgo Esquisito, segundo Congá), costumavam ir ai final da paris do Jabaquara, onde existe um mangue, para pegar caranguejos.

E lá ficavam horas dedicados a esta tarefa e usufruindo a exótica natureza à sua volta, repleta de pássaros selvagens (garças, gaivotas, um tipo de pelicano cor de rosa) que também iam para lá em busca de seu alimento.

As árvores (guanxuma, siriuba, mangue branco, mangue rosa) ficavam repletas destas aves, e hoje, a invasão do homem a esse manancial, como tem acontecido em toda à parte, correu com elas dali.

No dia 19 de mão de 1991 nós estivemos lá, para o meu batismo na lama-inesquecível! (o que ainda é outra história) e vimos apenas duas garças quando, a menos de dez anos atrás, elas eram incontáveis.

“Isso dá até uma tristeza na gente”, diz Congá.

Mas voltando a nossa história, deixamos que o próprio protagonista nos conte:

“Então, a gente tinha o prazer de voltar, às vezes, até arrastando o saco pesado pra caramba, pelo meio desse mangue mesmo. Aí a gente se sujava, entendeu? E dava muita risada porque a gente já não conhecia mais um ao outro.

Então chegamos a seguinte conclusão: – Poxa, um dia vamos para a cidade assim, só para sacanear o pessoal?

Aí em falei: – Pô, mais ir assim, o pessoal vais acabar conhecendo pelo formato do corpo da gente, então temos que usar alguma coisa diferente para tapar mais o nosso rosto…

Então veio a idéia da barba-de-velho… A gente resolveu colocar isso no cabelo, no corpo…para dar um clima diferente, -pra realmente as pessoas não conhecerem mais a gente.

Aí quando a gente colocou este tipo de enfeite, que era a barba de velho a gente se achou parecido com o homem da pré-história e começamos a andar representando este homem pré-histórico, senão também o pessoal poderia conhecer a gente pelo andar…

Mas aí houve um problema. A gente se vestiu e tal e andamos um pedaço da praia e falou: olha, não vamos continuar porque só nós dois vai ficar chato. Vamos escolhes uma época oportuna…Chamar uns colegas…”

Foi então que no carnaval de 1986 um pequeno grupo comprou essa idéia do Lúcio e do Nilton e, saiu pela primeira vez, o Bloco da Lama.

Itinerário

Saindo da Praia do Jabaquara, o Bloco atinge a Praia do Pontal em direção ao bairro Histórico. Passa pela Praça da Matriz, rua Samuel Costa, rua do Comercio, rua Maria Jacomê de Melo e Avenida Roberto Silveira, de onde retorna ‘a Praça da Matriz.

Concluído esse trajeto, que tem duração aproximada de duas horas, os participantes se dirigem ‘a praia do Pontal para o banho de mar. Alguns porém se atiram da ponte, se banhando no rio…”E acaba o bloco”.
(Luis Rebelo)

Durante esse cortejo, os integrantes, na sua maioria, se locomovem como seres primitivos, arqueando as pernas e o tronco e fingem que vão atacar as pessoas, sempre cantando:

“UGA UGA RÁ RÁ, UGA UGA RÁ RÁ, UGA UGA RÁ RÁ…”

“Tem uns que fazem o simulado de uma luta, uma briga, ‘às vezes por causa de mulher e, então, vão acontecendo coisas naturalmente.”
(Luis Rebelo)

Há também uma espécie de andor (criado a cada ano) que tem a finalidade de não deixar o bloco se dispersar, em volta do qual se faz umas danças e representações.

Em frente ao Dito Coupê * e ao Toronto ** costuma-se parar o andor para essa, digamos, evoluções.

* Conhecido bar na Praça da Matriz

** Famosa lanchonete de Paraty

Há sempre um orador oficial que grita mensagens para o grupo, como se falasse a ininteligível língua de uma tribo primitiva, e o coro todo responde.

Tudo isso acompanhado de uma coreografia em que todos – se abaixam e levantam, com os braços e as mãos estendidos, em louvor ao andor, como se reverenciam os grandes chefes (deuses ou reis), muitas vezes girando em torno do mesmo.

“É uma coisa meio mística, parece uma coisa africana, sabe, uma coisa muito doida mesmo. Não dá para explicar direito”
(Derli Costa de Souza, 39, comerciante)

“…parecia o homem da idade da pedra lascada, bem primitivo…uma coisa meio monstruosa, negros, os olhos ficam avermelhados pela força da lama…a impressão é que estão nus”
(Julio Paraty, 39 artista plástico).

“Me lembrou, assim, sei lá, lá na África. Deu vontade de entrar nele e brincar também. Muito bonito!”
(Jeremias, 42, auxiliar de enfermagem)

“…é uma brincadeira, e eu gosto. É estranho, né? Uma sensação estranha, muita sujeira, mas é gostoso”.
(Tica, 21, balconista)

“… a gente tenta se sujar de lama o máximo que pode para ficar o menos reconhecível possível”.
(Suzana Carpinelli Calixto, 15, estudante)

“…e a gente até fica pensando: daqui um dia não vai ter mais ninguém para ver na rua porque todo mundo esta a fim de sair. E saí cachorro, saí criança, saí mulher grávida, saí … muita pessoa, entendeu?”
(Congá, 24, professor)

Função

A função primordial do bloco da lama é, sem sombra de dúvida, a de divertir, de resgatar o prazer, o jogo, a farra.

Assim nasceu a idéia do bloco da lama:- da brincadeira da lama de dois saudáveis adolescentes e assim vem crescendo essa “tribo” – durante a folia inerente ao carnaval.

“…Esses dois, além de pegar caranguejo eles gostavam de brincar. Então eles brincavam, se sujavam de lama deitavam na lama… e quando você fica assim deitado na lama, você vai dando umas braçadas e vais assim andando que nem caranguejo… e eles brincavam na lama e nessas brincadeiras…” Vamos pra cidade assustar as pessoas?” – que já é uma brincadeira tradicional da cidade: assustar as pessoas”.
(Luiz Rebelo)

“participando é mais gostoso. É uma delicia participar. Eu, pelo menos, me realizei de tal maneira, como se fosse uma criança que tivesse tido, pela primeira vez, aquele brinquedo que queria muito.

…”.”.uma pessoa de mais idade, né? Então só ia apreciar. Mas este ano eu não resisti à tentação e disse: eu vou de qualquer jeito, não quero morrer… E agora, enquanto Deus me der saúde eu vou sair.
(Maria Rameck, 74)

“…Existem alguns pequenos abusos , mais são coisas que fazem parte da brincadeira. A origem do carnaval é no abuso, né?”.
(Luiz Rebelo)

‘Além de tudo, é um super teatro. E participam todas as pessoas da cidade: moço, criança, velho, todo mundo. É uma festa bem comunicativa com a participação comunitária.”“.
(Marta Cintra)

“Além de ser carnaval de ser popular, que é isso , né? A gente ta dando uma conotação de preservação, tá?”.

Agora, muita gente que participa do bloco não sabe nada disso.

Esse visual, essa imagem esse encontro, chega a ser assustador. A pessoa se transforma, se metamorfoseia num ser de lama. É uma imagem que encanta e hipnotiza (ou afugenta) pela sua força.

“E tem pessoas de ir para casa, de ir embora de Paraty de medo. Com medo, como existe no mascarado, né?”.

Mas eu acho que o Bloco da Lama é mais forte…o mascarado – você vê logo que é uma caracterização“
(Luiz Rebelo)

“É uma coisa muito original e muito bonita, mesmo”.

Eu achava que o Fantástico devia até filmar porque é uma coisa inédita no Brasil, talvez no mundo inteiro.”
(Maria Rameck)

Por isso, nesse mesmo ano (1986) resolveram se utilizar novamente do recurso assombroso dessa máscara de lama, no manifesto contra a Usina Nuclear de Angra dos Reis.

Nesse manifesto, com cartazes e tudo mais, aqueles seres horrendos representariam agora as vítimas da radiação, o que seria, dos habitantes de Paraty, e adjacências de pois de uma possível catástrofe em Itaorna.

“Sabe, tem uma Usina aqui que não é muito segura. Uma Usina, aqui no quintal de nossa casa em Itaorna. Itaorna em tupi guarani quer dizer “Pedra Podre”. E a Usina esta aí construída. Em cima de uma fenda, um tremorzinho de terra que se dê aí põe em risco toda a região.”
(Saulo Cruz)

“Então o fato desse visual mexer com as pessoas de alguma forma era na minha concepção, não um ato de rebeldia, mas de chamar a atenção. No se chamar à atenção se pensou no mangue, chamar a atenção para o manguezal…começou a ter um sentido mais ecológico. O que era uma coisa ruim pós-explosão nuclear, passou a chamar atenção para uma coisa importante, a nossa baía o manguezal, o pulmão do mar .“
(Saulo da Cruz)

E assim , vem crescendo o Bloco da Lama, graças a essa gente que mergulha fundo na natureza pra cumprir sua função,

Histórico Comparativo

Embora mangues ainda existam no mundo todo (graças a…) não temos notícia de nenhuma outra manifestação popular semelhante ao Bloco da Lama.

A não ser na paulista cidade de Silveiras/SP, também colonial, onde no sábado (outra coincidência?) de Aleluia, durante os festejos da semana santa, fazem o Banho de Lama.

Desde muito cedo as pessoas vem trazendo água naqueles latões de leite, com carroças e com enxadas, vão remexendo um grande monte de lama.

Isso acontece perto de onde está enforcado o “Judas” numa árvore, no centro da pracinha.

Às 7 horas “abrem” a lama e as pessoas brincam ali, enlameando umas as outras até o meio-dia quando estouram o Judas em meio a foguetório danado. Aí se encerra o banho de lama com todos caindo no rio que fica vermelho de lama.

Parece que a origem desse banho está na corrida das crianças, no sábado de Aleluia, que iam pela cidade gritando”Aleluia” enquanto comerciantes e pessoas bondosas lhes atiravam balas e moedas. Eles, por sua vez se atiravam ao chão na disputa pelas dádivas, e como costumava chover muito nessa época e as maiorias das ruas não eram calçadas, eles ficavam imundos. Daí nasceu esse folguedo, como a maioria deles…da folia.

Conclusão

Até me arrepia referir a uma conclusão no que diz respeito ao Bloco da Lama, pois é uma manifestação tão rica em simbologia, em significados que desperta inúmeras possibilidades de leitura e a nossa pesquisa apenas começou.

Mas vejamos:

O Bloco da lama já pode ser considerado um folgueto, uma forma de teatro popular, porque tem função, nasceu de forma espontânea e conquistou a aceitação coletiva, além de ser absolutamente dinâmico.

Quanto a sua estrutura possui todas as que caracterizam os folguetos:

O Cortejo – toda a trajetória do bloco desde sua saída da praia do Jabaquara até o banho final.

Coreográfico – Todas as coreografias mencionadas em torno do andor.

Dramático – todos os personagens que aparecem, o menino deus, o feiticeiro, o chefe e todos os conflitos em torno deles como a luta pelo fogo, por exemplo.

O Bloco da Lama é “Uma criatividade aqui do povo de Paraty mesmo”, como diz a nossa boa amiga, dona Maria Rameck, da altura de seus 74 anos nos chamando para brincar.

E termino, por agora, com as palavras do seu precursor, o Congá, que com vigor de sua juventude, trouxe como um mensageiro dos deuses, Netuno, talvez, uma fonte de saúde, porque deu alegria, para muita gente:

“Eu sei que, se deus quiser, O Bloco da Lama, nunca vai acabar. Eu vou morrer e isso vai ficar aí”.

Amém!

Marisa Sasso Papa 1991