História

Em Paraty, cidade localizada ao sul do estado do Rio de Janeiro, com arquitetura histórica do século XVIII, um bloco formado por seres, quase pré-históricos, sai pelas ruas de pedras e abre o carnaval, garantindo quatro dias de folia e muita alegria. O Bloco da Lama surgiu em 1986, quando dois amigos, alguns dias antes do carnaval, estavam capturando artesanalmente caranguejo no mangue do Jabaquara, a 2 km do Centro.

No mangue existe uma grande quantidade de insetos, entre eles mosquitos, muriçocas e mutucas. Para protegerem-se das picadas os rapazes passaram lama por todo o corpo. Num determinado momento olharam um para o outro e perceberam que estavam irreconhecíveis. Então combinaram, que convidariam mais alguns amigos, e que, no sábado de carnaval sairiam pelas ruas do Centro Histórico cobertos de lama e ornamentos naturais. O sucesso foi total: as pessoas do local ficaram surpresas, e turistas mesmo apavorados, queriam ver de perto aqueles seres com características pré-históricas. No ano seguinte um grupo maior se reuniu, formando um bloco representando uma tribo pré-histórica. O objetivo era espantar os maus fluídos para que o carnaval acontecesse em alto astral.

Por pura diversão ou por buscar os efeitos medicinais da lama da Jabaquara, rica em iodo e enxofre, a cada ano o Bloco da Lama ganha mais adeptos, já é uma das mais populares tradições do carnaval de Paraty. A lama, matéria básica do bloco é pura, composta de pó de pedra depositado durante muitos anos no leito do mar, chegando a dois metros de profundidade em alguns pontos do final da praia. Na parte de cima ela apresenta material natural em decomposição, por isso apresenta odor característico. O bloco já foi tema de tese de doutorado na USP em 1991 a pesquisadora Marisa Sasso Papa refere-se ao bloco como “a maior manifestação teatral espontânea ao ar livre” realizada no Brasil. Se compararmos o bloco da lama com as tradicionais festas espanholas Latomatina em Bunol, onde a população trava uma verdadeira guerra de tomates, e a famosa corrida dos touros em Pomplona, nesta a população e os turistas fogem dos touros soltos nas ruas, concluiremos que as pessoas procuram nestas manifestações, estar perto do perigo, libertando-se por algum tempo de certas regras impostas pela sociedade moderna. O bloco já foi manchete dos principais jornais do país como O DIA, FOLHA DE SÃO PAULO e O GLOBO.

Em fevereiro de 2002 foi matéria do JORNAL NACIONAL da TV GLOBO. A revista Quatro Rodas, em 2001, realizou ensaio fotográfico com alguns componentes do bloco para o lançamento do carro Mercedez Classe A.

No ano de fundação do bloco (1986) alguns membros bem ornamentados e enlameados fizeram parte do protesto contra a Usina Nuclear de Angra 2, apresentando-se como vítimas do vazamento nuclear da usina de Chernobyl na então União Soviética. Os organizadores ficaram impressionados com a criatividade do bloco, estavam presentes a atriz Lucélia Santos e o cientista Luiz Pinguelli Rosa. Em 1995, o Bloco chegou a ter mais de 2.000 integrantes se tornando o maior da cidade. Devido a este crescimento, os organizadores têm feito campanhas junto aos participantes, através da mídia local e de folhetos informativos, sobre a importância de não se sujarem as paredes da cidade, carros, e pessoas que não estão participando diretamente do bloco. “O barato é sair no bloco e não entrar depois e ser enlameado” afirmam os organizadores. O traje adequado é sunga ou biquíni, e qualquer material que incremente o visual preferencialmente objetos naturais. Da Praça da Matriz no Centro, todos seguem para a praia da Jabaquara, onde acontece o tradicional “banho de lama”. É nessa hora que os mais caprichosos procuram adereços naturais – como barba de velho (uma planta epífita muito comum na região), cipós e ossos, enfim a complementação da sua fantasia pré-histórica. Estes adereços são coletados de modo a não agredir o ambiente.Para fazer parte do bloco é só seguir o andor de bambu que carrega algumas caveiras de boi, devidamente ornamentadas, e soltar seus instintos mais primitivos. O grito de guerra dos intrépidos participantes é: UGA, UGA, RÁ, RÁ.

Durante o percurso que atravessa Morro do Forte, o bloco faz evoluções, coreografias e representações teatrais, que misturando o amadorismo do coletivo e o talento intuitivo de alguns participantes, oferece ao público um espetáculo único. Quando não houver um espírito negativo sequer rondando a cidade, o bloco se despede com a última evolução em frente à Igreja da Matriz, de onde os participantes seguem para um banho de água doce no Rio Perequeaçú, ou de água salgada na praia do Pontal. Os organizadores do bloco, Congá, Marcelo e Niltinho, aproveitam o sucesso e a influência do bloco entre os jovens para chamar a atenção da população, turistas e autoridades sobre a importância dos manguezais no ecos-sistema da cidade. O bloco exerce uma função natural de preservação e consciênciaecológica nos participantes, mas a intenção é aumentar a ação do Bloco inserindo o mesmo no cenário nacional e até mesmo internacional, como referência de convívio harmônico entre o meio ambiente preservado e o aspecto econômico, além, é claro, de divulgar Paraty como destino turístico e cultural. Alguns turistas vêm à cidade há vários anos especialmente para aproveitar os feitiços que o bloco exerce nas pessoas. Também é grande o número de visitantes estrangeiros que fazem questão de conhecer e desfilar no bloco no carnaval ou fora dele visitando o local onde os componentes se enlameiam. O bloco da lama sai sempre no sábado de carnaval às 17:00 h, da praia do Jabaquara, “um bloco formado por seres quase pré-históricos sai pelas ruas de pedras levando alegria e espantando os maus fluidos do carnaval. Num sábado de carnaval, há 15 anos atrás, alguns amigos brincavam de lama no mangue, surgia ali um dos blocos mais bizarros